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12 fevereiro 2019

Destralhe, Organização e Marie Kondo



Se organizar está na moda! Calma, não é uma crítica negativa, é só um fato. Eu acho isso maravilhoso e tenho certeza que está ajudando muita gente. A minha maior questão quanto a essa vibe toda é o destralhe. Terminei recentemente a série da Marie Kondo na Netflix e este assunto ficou martelando na minha cabeça durante um bom tempo.

Marie Kondo é uma personal organizer japonesa que ficou famosa no mundo inteiro fazendo a seguinte pergunta: isso te traz alegria? O método KonMari consiste em manter na sua vida somente itens que te trazem alegria. É claro que você não precisa dar cambalhotas toda vez que vir aquela blusa que te veste super bem, mas ela defende que o acúmulo de coisas sem propósito pode ser um obstáculo no caminho para um estilo de vida mais simples e feliz. Se é o que você deseja, obviamente. Gostei muito da série, achei a Marie extremamente fofa e empática. Recomendo pra todo mundo.

Considero todos os métodos de organização extremamente válidos. Podem não ser unanimidade, claro, mas eles ajudam muita gente a seguir uma vida mais funcional e menos estressante. A minha questão é a grande importância que as pessoas dão ao destralhe. Veja bem, é inevitável que, num processo de organização, algumas coisas sejam descartadas. O problema, na minha opinião, é quando isso vira meio que uma tentativa desesperada de se provar organizado. Quando me dei conta de que organização, vida simples e todo esse universo me fazia muito bem e eu adorava pesquisar e estudar sobre, encontrei muita gente que não fazia outra coisa a não ser destralhar. No início aquilo me motivou a repensar os meus pertences e também descartar o que já tinha cumprido o seu papel e não me servia mais. Só que, com o passar do tempo, eu não tinha mais o que doar/ jogar fora, mas as pessoas continuavam lá, destralhando. 

Não sou profissional de organização e seria leviano da minha parte dizer se a forma como esses destralhes eram feitos estava certa ou errada. Também não faço ideia se as pessoas usavam algum método específico. O que me deixava intrigada era que a 'pauta' praticamente se resumia ao destralhe. Galera, já mandei embora minha casa toda, será que a gente pode falar sobre como manter a organização? Será que organização se resume a jogar tudo fora? 

Se no começo eu estava super empolgada, com o tempo passei a questionar o porquê daquele povo focar tanto no destralhe. Não cheguei a nenhuma conclusão, mas atentei para alguns pontos.

Consumismo


Uma coisa que eu percebi observando algumas pessoas era que a cada caneta jogada fora, três eram repostas. O que pra mim não fazia muito sentido, já que o objetivo era mandar embora o que estava em excesso, ou o que não tinha mais utilidade. Tudo bem, se a pessoa só tinha uma caneta e a tinta havia acabado, ela realmente precisava comprar outra. Mas três? Me perguntei se não era exatamente por isso que os destralhes não acabavam nunca. As pessoas usavam o descarte como desculpa para consumir mais. 

Por favor, longe de mim dizer o que alguém pode ou não comprar. A questão era que muita gente reclamava dos excessos. Eu não conseguia entender a lógica de jogar um e comprar dois, portanto.

Conceito individual de minimalismo


Em contrapartida ao ponto anterior, alguns outros indivíduos usavam o que eu chamo de 'conceito individual de minimalismo' para justificar tamanha quantidade de coisas descartadas. Fui apresentada ao minimalismo em 2013 e, realmente, para quem está em busca de um caminho para um vida mais simples e organizada, este é um estilo de vida encantador. Eu me apaixonei logo de cara e comecei a pesquisar muito sobre o assunto. Encontrei conteúdos excelentes, mas também muita coisa que não me representava, como a quantidade de roupas ideal para se viver, ou a cor da tinta que um minimalista deve comprar para pintar a sua casa. Este último é brincadeira, mas não é difícil achar este tipo de absurdo.

Se uma coisa ou outra não se encaixava na minha realidade, eu simplesmente deixava pra lá e vida que segue. Mas nem todo mundo é assim, as pessoas gostam de vestir certas camisetas, levantar certas bandeirinhas. E isso meio que culminava no looping infinito do destralhe porque algumas realmente acreditavam que, para serem considerados minimalistas - e este título, para alguns, é muito importante -, precisariam de uma quantidade 'x' de coisas. 

Daí vem o que chamo de 'conceito individual de minimalismo', porque cada um tem uma visão diferente sobre esse estilo de vida. Para mim é um caminho extremamente interessante para quem gostaria de ter uma vida mais simples. Para outros é quase como uma religião, e tem muitas regras - uma delas é viver num espaço vazio completamente branco. Logo, quem não se encaixa, está fora. 

Eu sou mais organizado que você


Você já ouviu falar na competição do sofrimento? Pois bem, sabe quando você comenta que tropeçou, mas não caiu, e o seu colega responde que tropeçou, caiu, bateu a cabeça e ficou em coma por cinco anos? Esta é a minha definição para competição de sofrimento. Se as pessoas competem pra ver quem vive a vida mais miserável, é claro que elas também criarão a plaquinha do 'organizado do mês'.

Eu vi muito isso acontecer. Parecia que a quantidade de coisas que a pessoa jogava fora determinava o quão organizada ela era. E bom, se eu joguei duas caixas e você só jogou uma, tchanran!, eu sou mais organizado que você. 

O que eu acho mais interessante no método da Marie Kondo - e concordo plenamente que isso tem tem tudo a ver com a cultura - é a maneira delicada com a qual ela trata os objetos das pessoas. Não é o destralhe pelo destralhe, é descartar com propósito. Em todos os episódios as mudanças aconteciam nas pessoas também, não somente em suas casas. Não há como se falar em mudança de estilo de vida sem começar por onde realmente importa: por dentro. Organização exige esforço e deve ser praticada todos os dias.

É claro que o método KonMari é apenas um entre tantos outros de organização. Só estou tomando como exemplo para ilustrar o que cada vez mais se encaixa na minha percepção do que é destralhar. Acredito que se desfazer das coisas o tempo inteiro traz uma falsa sensação de organização. Se não vier de dentro, se não com uma mudança de hábito, pensamento e comportamento, não é uma casa vazia que vai atestar alguém como organizado. 

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