Luiza e Pedro #2

by - outubro 02, 2014


A primeira parte desta série está aqui.



Sexta-feira. Já passa das 21:00 quando aquele bando de agentes e modelos saem do meu apartamento. Do meu estúdio. Do apartamento que virou estúdio. Do que seria um estúdio e, por falta de grana, virou apartamento. Sem coragem de desmontar todos os equipamentos, abro o frigobar e destampo uma Heineken gelada. Ligo o som e deixo Radiohead arrebatar minha depressão. Deito sobre os pufs que dão certa cor ao ambiente impregnado pelo branco e penso na vida.

É difícil admitir – por causa desse orgulho macho e tal –, mas a verdade é que eu estou na fossa. Levei o maior pé na bunda da história e agora só o que eu consigo fazer é comer pizza, beber cerveja e ouvir músicas deprimentes. Vez ou outra escrevia umas palavras bonitas num bloquinho que fica na cabeceira da cama. Mas, ao contrário do que acontece com todo mundo, a tristeza não me inspira, não há palavra que descreva o fim. Seja lá do que for.

Já que não tem pra onde correr, o jeito é se jogar no trabalho. Sou fotógrafo, e não há nada no mundo que me traga mais prazer do que eternizar um momento e estampa-lo nas paredes e prateleiras da sala, do quarto, dos corredores da vida das pessoas. Tá que às vezes o momento é um editorial de moda pra uma revista – como o que estava acontecendo agora pouco por aqui -, as flores dos catálogos de floriculturas, carros, motos. Mas eu preciso comer minhas pizzas, e não tem quem pague por elas que não eu mesmo. Também não tenho foco, é verdade: tá na frente da lente é ‘click’. Um dia eu me acho. Um dia depois dos meus 27 anos, porque até então, vivo procurando no mundo uma razão para estar nele.

Em meio ao turbilhão de pensamentos, meus ouvidos captam um barulho esquisito vindo de algum lugar. Percebo que é do banheiro que parte o som e corro para verificar. Como se não bastasse toda a minha falta de sorte, agora o teto do meu banheiro tem uma infiltração gigante e pingos ininterruptos inundam o local. O prédio aqui é novo, não é possível que já apresente problemas hidráulicos nos apartamentos. Junto o que consigo de panos de chão, na tentativa de conter um pouco a água e não morrer afogado. Corro para o andar de cima, na esperança de encontrar o morador e pedir, por obséquio, que ele pare agora com seu delicioso banho.

Continua...

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1 comentários

  1. Muita inspiração pra tu, já tô curiosa pra saber o que vai acontecer... Engulo livros, e essa história tá com a cara ótima. Sucesso xará de apelido.

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