Retórica

by - dezembro 14, 2013


Este texto é de autoria do meu namorado, o Felipe, e foi originalmente postado em seu extinto blog, o "Dominó de Nuvens".

Era seu primeiro dia trabalhando na bilheteria do teatro, e o movimento estava fraquíssimo. Ela não podia reclamar, afinal, um emprego era um emprego, e algumas pessoas estariam até mesmo contentes por ter menos o que fazer durante o expediente. Sua companheira do guichê ao lado era uma mulher mais velha, tão tranquila de que ninguém apareceria que se pusera a completar um encarte de palavras cruzadas.

- Por que será que ninguém mais vem ao teatro, não? - disse ela, só pra matar o tempo.

- É claro que é porque a cultura das pessoas mudou. Os brasileiros de hoje não têm mais o ímpeto e a vitalidade que tinham os de vinte anos atrás. - respondeu a mulher, carrancuda.

Aquele mau-humor súbito a perturbou. Nem esperava uma resposta de verdade para sua pergunta, tinha-a feito com o único intuito de puxar assunto. Mesmo assim, tentou ser educada e continuar uma conversação amigável:

- Talvez seja só porque o povo está sem dinheiro.

- Tsc. - fez a mulher com o canto da boca erguido - Sem dinheiro quê nada. Se todo mundo ganha o suficiente pra encher a casa de aparelhos de televisão, então o têm de sobra para vir ao teatro.

- Quem sabe se fizéssemos mais propaganda na tevê então... - começou ela, e foi interrompida pela mulher:

- Você não ouviu o que eu disse? - ela ficou de boca aberta, fazendo uma cômica cara de desdém - Todo mundo sabe que o teatro existe, não é por falta de propaganda ou de dinheiro que ninguém vem aqui. Eles preferem manter suas bundas sentadas nas confortáveis poltronas em seus apartamentos abafados enquanto assistem tevê sozinhos e vestidos só com a roupa de baixo. Esse é um retrato de uma geração, mocinha, uma geração lamentável.

Aquele discurso fora tão pungente que, por um momento, ela não soube o que responder.

- Meu Deus, mas porque tanto ódio? - disse, enfim - As pessoas não são assim. Elas trabalham, dão duro, têm filhos pra sustentar e impostos pra pagar. Você fala como se todos os brasileiros fossem vagabundos!

- Eu nunca disse que são vagabundos. Disse que são acomodados. - respondeu a mulher, na defensiva.

- Não sei qual é a diferença. - disse ela - E acho que a senhora é muito mal-educada. Todo esse sermão só porque eu fiz uma simples pergunta que, aliás, era retórica, você nem precisava ter-se dado ao trabalho de responder.

E então a mulher acomodou-se em sua cadeira, baixou o tom e, carregando cada palavra de ironia, disse:

- Bem mocinha, a diferença é justamente essa: os vagabundos não perguntam, e os acomodados fazem perguntas retóricas. Aqueles que fazem perguntas que não precisam ser respondidas, não querem de verdade saber a resposta. É assim que você e que a maioria dos brasileiros são: acham bonito o problema, mas não se importam com a solução.

Ela estava pronta para retrucar, quando a mulher lhe perguntou:

- Palavra de nove letras para “mudança drástica, rebelião”. Sabe?

- Não! - disse ela, irritada e pega de surpresa.

- Como pensei. - respondeu a mulher, com um sorriso satisfeito.

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