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04 abril 2019

Photo by Lisa Fotios from Pexels

Sei que esse desafio não é novidade para ninguém, mas eu resolvi sair do plano espectador e me dar a chance de colocar a mão na massa. Ver os outros fazendo é fácil, e você sempre fica com aquela sensação de "grande coisa" (no sentido figurado da expressão, aquela dos ombrinhos). Mas será que é mesmo? Foi o que eu tentei descobrir.

Desafiar-me a passar uma semana sem redes sociais até teve a ver com os milhares de casos que já tive a oportunidade de acompanhar por essa internet de meu Deus, mas o que realmente me fez agir foi um episódio um tanto quanto assustador. Acordei, certa vez, às 08:00. Até aí tudo bem, geralmente levanto antes disso até, pois gosto de acordar cedo, tomar meu café, assistir aos jornais matinais, fazer meus serviços domésticos e ainda resolver vários pepinos antes do meio dia. Só que desta vez eu estava com preguiça. E eu me permito ter preguiça, pois a Terra continuará girando se eu não levantar às oito em ponto. Pra falar bem a verdade, eu ainda estava com sono e deveria ter virado para o outro lado e continuado a sonhar com ladrões e quedas de precipícios (eu só sonho com desgraça, nunca sonhei com passeios em Paris). Mas ao abrir um centímetro os meus olhos, adivinha quem eu encontrei posicionado estrategicamente no criado-mudo? Pois é.

A tentação foi mais forte e eu peguei o celular só pra ver a hora. Grande foi a minha surpresa quando, enfim, olhei para o relógio e ele marcava 12:14. Sim, precisamente este horário. Eu não esqueci. Eu não virei para o lado e dormi até meio dia. Eu passei quatro horas e quatorze minutos nas redes sociais. SEM PAUSA. Vocês não fazem ideia do pulo que eu dei da cama, assustada por ter jogado no lixo o que eu considero ser o meu bem mais valioso: o tempo. Me senti muito culpada por não conseguir resistir ao ímpeto de pegar o bendito aparelho e me perder por horas e horas num oceano de nada. Sim, porque as horas que eu perdi deslizando pelo feed do Instagram, completando todos os pontinhos dos stories e assistindo a todos os vídeos que o Youtube me recomendava, não me acrescentaram um pingo no i.

Você deve estar pensando que eu sou exagerada, jogada aos seus pés, mas o fato é que eu não sou tão viciada assim em redes sociais, a ponto de perder uma manhã inteira. O que me encanta é que o núcleo da Terra é o limite. Eu rolo o feed do Twitter, por exemplo, e acho um link interessante. E a partir deste, um outro link. Depois outro. E outro. E aí, colegas, já nem lembro qual aplicativo me levou a essa estrada de tijolos amarelos. As quatro horas ininterruptas navegando sem bússola me assustaram sim, porque não é do meu feitio. Mas este episódio me mostrou que se eu escolhesse me tornar uma viciada, eu me tornaria.

Sem hipocrisia, pessoal, é claro que eu checo as redes sociais diariamente, mas não por quatro horas seguidas. Eu venho tentando desenvolver a consciência do uso menos nocivo desses aplicativos, tentando entender o que eu sinto quando exposta a determinados conteúdos. Presto cada vez mais atenção no que me deixa feliz, no que me inspira, no que me causa ansiedade e no que me é totalmente indiferente. Estas informações guiam o meu comportamento enquanto usuária e me preocupo em estar sempre atenta a cada um destes pontos.

Com a sensação de que as várias horas perdidas naquela manhã poderia ser o início da barbárie (hehe!), achei que seria interessante passar pela experiência do famoso detox digital. Foram sete dias de rehab. Muitos aprendizados, muitos mitos caíram por terra, muitas verdades vieram à tona. Pontuei os comportamentos e características a seguir:

O tempo não passa 


Não é verdade. Eu sou dona de casa e, não sei se você sabe, serviço doméstico não acaba nunca. Eu tenho outras milhares de coisas para fazer além de espiar o feed do Instagram. Minhas manhãs são sempre muito ocupadas e eu raramente fico no celular em dias normais, que dirá no detox. Confesso que, às vezes, ali depois do almoço, eu esquecia que tinha excluído os aplicativos e destravava o celular para checar alguma novidade. Como não tinha nada, passei a preencher o tempo com outras coisas. Li dois livros, coloquei minhas séries em dia, escrevi posts pro blog, editei vídeo pro canal, dei continuidade a um curso online e ao inglês que estudo em casa mesmo.

Nós estamos tão acostumados a grudar no celular em momentos de ócio, que realmente acreditamos na falsa premissa de que o tempo não passa se ele não estiver nas mãos. Mas ora, as redes sociais são as únicas fontes de entretenimento possíveis? Lembrem-se que o detox é de redes sociais, o resto da internet pode ser usada à vontade. Será possível que não tem mais nada pra fazer? Eu não acredito nisso. Para mim, tudo na vida é prioridade. Se você prefere usar o seu momento off nos aplicativos, não me diga que não lê porque não tem tempo. Você só está priorizando uma atividade.

Estou perdendo alguma coisa


Olha o famoso FOMO (Fear of missing out) aí. Quando decidi passar por essa experiência, uma das minhas preocupações era justamente o medo de perder alguma coisa. É claro que coisas extraordinárias iriam acontecer na minha ausência e eu ficaria de fora. Pior, a oportunidade da minha vida estaria nas redes sociais enquanto eu estivesse ausente. É CLARO!

Daí eu me dei conta de que as oportunidades da nossa vida podem estar no banco de uma praça na Nova Zelândia e estamos perdendo do mesmo jeito.

A gente meio que atrelou isso de estar perdendo algo às redes sociais, quando na verdade nós estamos perdendo coisas o tempo inteiro, não somente por meio da internet. É a vida. É impossível você viver todas as coisas ao mesmo tempo. Não se engane, rolar o feed do Instagram não te teletransporta para lugar algum, não te faz viver nenhuma experiência nova. Tudo aquilo pode te servir de inspiração, mas a vida acontece fora do aplicativo.

Cheguei a conclusão de que eu realmente não perdi nada, porque não é como se eu tivesse colocado a minha vida em stand by. Eu só não estava assistindo a vida dos outros.

E a vida dos outros não é melhor que a minha


É óbvio que se você está o tempo todo exposto à vida alheia - que mais parece um eterno Noronhe-se - em algum momento sentirá que a sua vida não é boa o suficiente. Quando não se tem mais acesso aos presets do Ligthroom embelezando a timeline, não se tem mais esse tipo de pensamento.

Eu não tinha mais com quem comparar a minha vida e, devo confessar, me senti muito bem. Pois ao dedicar a minha atenção somente a mim mesma, consegui redirecionar um pouco o meu mindset. Se antes deixava de fazer algo por achar que fulano fazia melhor, durante esses dias eu me permiti fazer as coisas. Escrever este post é um exemplo. É óbvio que milhares de pessoas escrevem bem melhor do que eu, mas isso deve me servir de incentivo para melhorar, não me paralisar e achar que não sou boa o suficiente.

(Então, eu sou a presidente do fã-clube dos pessimistas, nunca acho que o que eu faço está bom. Mas esses sete dias me fizeram enxergar uma luzinha no fim do túnel. Eu acho que estou começando a compreender que não sou a pior em tudo, só estou fazendo as comparações erradas. Eu devo querer ser melhor do que eu fui ontem, não do que fulana parece ser sempre. Entende?)

Quando olhamos para o mundo pela lente do espectador, de fato as coisas sempre parecem bem mais interessantes. O negócio é parar de assistir e começar a fazer.

Imagem: Contente

Cadê a novidade?


Passei sete dias longe e quando voltei não percebi uma única diferença. Vai, ok, uma das meninas que eu sigo arrumou um namorado. Mas assim, qual a relevância deste dado na contribuição para a diminuição da desigualdade social? 

A grande verdade é que as pessoas continuam postando as mesmas coisas, sobre os mesmos assuntos, da mesma forma. Sinceramente, eu esperava que ao reinstalar os aplicativos a saudade (hehe!) me fizesse enxergar tudo com um novo brilho. E isso nem de longe aconteceu. Abri, primeiramente, o Twitter - minha rede social preferida - e encontrei os tweets exatamente como os tinha deixado. Parecia que o tempo não tinha passado. As pessoas continuavam reclamando da chuva em São Paulo, da nova declaração sem noção do Bolsonaro, do casamento de alguma subcelebridade da vez. Para ser honesta, só senti falta dos memes mesmo.

Ansiedade


A minha ansiedade aumentou durante os primeiros dias de desafio. Como já falei, eu esquecia que tinha excluído os aplicativos e pegava o celular automaticamente para conferir as notificações. Além disso, eu sentia o celular vibrar o tempo todo. Foi muito estranho, o meu cérebro ainda não tinha entendido que eu não estava mais conectada àquelas redes. Creepy!

Só que com o passar do tempo o inverso tornou-se verdade. Eu não mais tocava no celular, tanto que minha bateria chegava a terminar o dia em 80%. Esqueci um pouco que ele existia e, como não tinha mais a vida alheia para tomar conta, foquei em outras coisas. Não mais me deparava com aquela sensação de quase morte por não estar rolando o feed do Instagram. 


Não, eu não fiquei louca


Alguns anos atrás, meu irmão me contou que tinha excluído o Facebook. Prontamente o chamei de louco. Como assim alguém exclui o Facebook? Coitado, respiraria com ajuda de aparelhos a partir daquele momento. Na minha cabeça, à época, não estar no Facebook era o mesmo que não existir. Por ironia do destino, hoje eu me interesso zero e caindo pelo Facebook.

Daí que contei para algumas amigas que estava participando desse desafio e uma delas usou o mesmo adjetivo que eu empreguei na conversa com meu irmão: Tu é LOUCA? Risos! Em sua defesa, ela não tinha entendido que era somente um desafio e não a saída definitiva das redes sociais. Mesmo assim, é muito engraçado. E muito estranho.

O pensamento que tive lá atrás quando meu irmão decidiu excluir - sim, ele excluiu definitivamente - o Facebook não é singular. As pessoas realmente acreditam que optar por não estar na redes sociais faz de você um maluco. Afinal, todo mundo tem, dãã! Digo mais, se você não tem uma conta no Instagram, você não existe. Eu nunca te vi. Você existe?

Olha, eu continuei existindo esses sete dias, chequei algumas vezes as batidas do meu coração e elas pareciam firmes e fortes. Não deu pra compartilhar a foto do meu Apple Watch (que no caso eu não tenho) marcando os batimentos cardíacos, mas eu juro que eu existi. Fiz várias coisas, inclusive os meus óculos novos e as unhas. Ah, e também não fui parar no manicômio. Muito pelo contrário, percebi uma certa diminuição na ansiedade, como já falei, o que contribui muito para a saúde mental.

Escolher não estar nas redes sociais é normal, ninguém é obrigado. Pode parecer que as pessoas que decidem por esta atitude são malucas, ignorantes, mal informadas e vivem à margem do mundo. Mas não é verdade. Algumas pessoas não veem a necessidade mesmo, inclusive acreditam ser uma grande perda de tempo (e não é verdade?). E estão no direito delas. 


Quero deixar claro que eu não comecei a odiar as redes sociais, inclusive já voltei para todas <3 Eu sou do time que acha que a internet, em geral, deve nos servir, e não nós a ela. Aprender como usar cada uma dessas ferramentas é princípio básico para ser te uma vida digital saudável. Vocês me desculpem, mas, principalmente depois dessa experiência, eu não acredito que somos sempre as vítimas quando o assunto é internet. Como falei acima, ninguém é obrigado a estar logado o tempo inteiro.

Eu sou publicitária e sei o quanto o canto da propaganda parece com o de uma sereia. Mas no final das contas, quem decide, quem tem o poder de escolha é você. Certa vez comentei com uma amiga esse meu desejo de dar um tempo e ela foi categórica ao dizer "EU não consigo". Perceberam? ELA não consegue, ELA não quer. Os algoritmos das redes sociais não são armas apontadas para a nossa cabeça. Não estou questionando a dificuldade de se manter afastado ou de usar com consciência, mas nem que eu tivesse todo o dinheiro do mundo poderia comprar a ideia de que eu não tenho escolha. 

Bom, pra mim esse desafio super funcionou. Acabou que deu muito certo e foi bem mais fácil do que eu pensava. Não sei se a minha experiência pode ajudar alguém de alguma forma, mas se eu puder dar um conselho, sugiro que você tente. Não precisa colocar meta em dias, como eu fiz. Faça no seu tempo, siga até o ponto que você achar que deve. Mas o mais importante é prestar atenção no que você sente, nos seus comportamentos, no porquê daquilo fazer ou não falta na sua vida. Será a partir dessas conclusões que você conseguirá entender se o uso que tem feito das redes é, de fato, saudável.

Gostaria de indicar para vocês o especial Detox Digital da Contente. Como o próprio site fala: é uma imersão coletiva e uma investigação pessoal sobre o excesso (de consumo) de informação. Recomendo muito a leitura!

O conteúdo deste post também está disponível em vídeo, caso você tenha interesse em assistir:

12 fevereiro 2019



Se organizar está na moda! Calma, não é uma crítica negativa, é só um fato. Eu acho isso maravilhoso e tenho certeza que está ajudando muita gente. A minha maior questão quanto a essa vibe toda é o destralhe. Terminei recentemente a série da Marie Kondo na Netflix e este assunto ficou martelando na minha cabeça durante um bom tempo.

Marie Kondo é uma personal organizer japonesa que ficou famosa no mundo inteiro fazendo a seguinte pergunta: isso te traz alegria? O método KonMari consiste em manter na sua vida somente itens que te trazem alegria. É claro que você não precisa dar cambalhotas toda vez que vir aquela blusa que te veste super bem, mas ela defende que o acúmulo de coisas sem propósito pode ser um obstáculo no caminho para um estilo de vida mais simples e feliz. Se é o que você deseja, obviamente. Gostei muito da série, achei a Marie extremamente fofa e empática. Recomendo pra todo mundo.

Considero todos os métodos de organização extremamente válidos. Podem não ser unanimidade, claro, mas eles ajudam muita gente a seguir uma vida mais funcional e menos estressante. A minha questão é a grande importância que as pessoas dão ao destralhe. Veja bem, é inevitável que, num processo de organização, algumas coisas sejam descartadas. O problema, na minha opinião, é quando isso vira meio que uma tentativa desesperada de se provar organizado. Quando me dei conta de que organização, vida simples e todo esse universo me fazia muito bem e eu adorava pesquisar e estudar sobre, encontrei muita gente que não fazia outra coisa a não ser destralhar. No início aquilo me motivou a repensar os meus pertences e também descartar o que já tinha cumprido o seu papel e não me servia mais. Só que, com o passar do tempo, eu não tinha mais o que doar/ jogar fora, mas as pessoas continuavam lá, destralhando. 

Não sou profissional de organização e seria leviano da minha parte dizer se a forma como esses destralhes eram feitos estava certa ou errada. Também não faço ideia se as pessoas usavam algum método específico. O que me deixava intrigada era que a 'pauta' praticamente se resumia ao destralhe. Galera, já mandei embora minha casa toda, será que a gente pode falar sobre como manter a organização? Será que organização se resume a jogar tudo fora? 

Se no começo eu estava super empolgada, com o tempo passei a questionar o porquê daquele povo focar tanto no destralhe. Não cheguei a nenhuma conclusão, mas atentei para alguns pontos.

Consumismo


Uma coisa que eu percebi observando algumas pessoas era que a cada caneta jogada fora, três eram repostas. O que pra mim não fazia muito sentido, já que o objetivo era mandar embora o que estava em excesso, ou o que não tinha mais utilidade. Tudo bem, se a pessoa só tinha uma caneta e a tinta havia acabado, ela realmente precisava comprar outra. Mas três? Me perguntei se não era exatamente por isso que os destralhes não acabavam nunca. As pessoas usavam o descarte como desculpa para consumir mais. 

Por favor, longe de mim dizer o que alguém pode ou não comprar. A questão era que muita gente reclamava dos excessos. Eu não conseguia entender a lógica de jogar um e comprar dois, portanto.

Conceito individual de minimalismo


Em contrapartida ao ponto anterior, alguns outros indivíduos usavam o que eu chamo de 'conceito individual de minimalismo' para justificar tamanha quantidade de coisas descartadas. Fui apresentada ao minimalismo em 2013 e, realmente, para quem está em busca de um caminho para um vida mais simples e organizada, este é um estilo de vida encantador. Eu me apaixonei logo de cara e comecei a pesquisar muito sobre o assunto. Encontrei conteúdos excelentes, mas também muita coisa que não me representava, como a quantidade de roupas ideal para se viver, ou a cor da tinta que um minimalista deve comprar para pintar a sua casa. Este último é brincadeira, mas não é difícil achar este tipo de absurdo.

Se uma coisa ou outra não se encaixava na minha realidade, eu simplesmente deixava pra lá e vida que segue. Mas nem todo mundo é assim, as pessoas gostam de vestir certas camisetas, levantar certas bandeirinhas. E isso meio que culminava no looping infinito do destralhe porque algumas realmente acreditavam que, para serem considerados minimalistas - e este título, para alguns, é muito importante -, precisariam de uma quantidade 'x' de coisas. 

Daí vem o que chamo de 'conceito individual de minimalismo', porque cada um tem uma visão diferente sobre esse estilo de vida. Para mim é um caminho extremamente interessante para quem gostaria de ter uma vida mais simples. Para outros é quase como uma religião, e tem muitas regras - uma delas é viver num espaço vazio completamente branco. Logo, quem não se encaixa, está fora. 

Eu sou mais organizado que você


Você já ouviu falar na competição do sofrimento? Pois bem, sabe quando você comenta que tropeçou, mas não caiu, e o seu colega responde que tropeçou, caiu, bateu a cabeça e ficou em coma por cinco anos? Esta é a minha definição para competição de sofrimento. Se as pessoas competem pra ver quem vive a vida mais miserável, é claro que elas também criarão a plaquinha do 'organizado do mês'.

Eu vi muito isso acontecer. Parecia que a quantidade de coisas que a pessoa jogava fora determinava o quão organizada ela era. E bom, se eu joguei duas caixas e você só jogou uma, tchanran!, eu sou mais organizado que você. 

O que eu acho mais interessante no método da Marie Kondo - e concordo plenamente que isso tem tem tudo a ver com a cultura - é a maneira delicada com a qual ela trata os objetos das pessoas. Não é o destralhe pelo destralhe, é descartar com propósito. Em todos os episódios as mudanças aconteciam nas pessoas também, não somente em suas casas. Não há como se falar em mudança de estilo de vida sem começar por onde realmente importa: por dentro. Organização exige esforço e deve ser praticada todos os dias.

É claro que o método KonMari é apenas um entre tantos outros de organização. Só estou tomando como exemplo para ilustrar o que cada vez mais se encaixa na minha percepção do que é destralhar. Acredito que se desfazer das coisas o tempo inteiro traz uma falsa sensação de organização. Se não vier de dentro, se não com uma mudança de hábito, pensamento e comportamento, não é uma casa vazia que vai atestar alguém como organizado. 

05 fevereiro 2019

Imagem: daqui - Artista: Harumi Hironaka

Desde o final do ano passado tenho percebido uma eufórica vontade de mudar certos comportamentos e atitudes, coisas que não me fazem bem. Quero mudar um pouco a forma como vivo a minha vida, como resolvo questões pessoais e, principalmente, como encaro o mundo a minha volta.

Eu me sinto cada vez mais exausta por me enxergar como uma pobre coitada que não tem poder algum sobre as circunstâncias da vida. Porque é aquela coisa, né gente? A vida vai acontecer. Quer eu queira ou não. E eu tenho algumas opções: 1) sentar e chorar (extremamente tentador); 2) fazer alguma coisa a respeito. E ainda existe uma terceira opção, justamente a que mais estava me levando ao fundo do poço: reclamar.

Juro que um dia cheguei em casa soltando tantos cachorros, mas tantos cachorros, que eles enfim me morderam. Passei umas duas horas reclamando de... nada. Bobagens que aconteceram, das quais eu não gostei, mas que não influenciaram em nada o curso da minha existência. Eu estava extremamente irritada com picuinhas que poderiam ter sido resolvidas na hora, ou que poderiam ter entrado por um ouvido e saído pelo outro. Ah, e o pinico que me serviu como depósito de tanta merda foi o ouvido do meu noivo. Coitado. Só me ouvia e acenava levemente com a cabeça. Durante duas horas. Deve ser amor mesmo.

Após o show de lamúrias, enfim parti em direção a um merecido banho e, ao me olhar no espelho, a primeira coisa que veio à cabeça diante daquela imagem foi "para de reclamar, sua insuportável". Sério, foi quase como se eu tivesse falando com uma outra pessoa, porque era exatamente isso que eu via no reflexo: uma chata que não sabia fazer outra coisa da vida além de reclamar. Naquele dia eu tomei um banho pra lavar até a alma. 

Eu cheguei a um ponto em que conviver comigo mesma estava se tornando quase um fardo. Eu só falava dos outros e do que eu não gostava nos outros. Passava o dia inteiro juntando todas as merdas que aconteciam no trabalho para rasgar o verbo em casa. Culpava o universo pelas coisas não tão boas que aconteciam comigo e, claro, acreditava estar sempre certa. Afinal, eu era SEMPRE a vítima, independente da situação.

Como falei no post anterior, eu pretendo me reinventar este ano e a primeira coisa que eu preciso fazer para que esse sonho vire realidade é parar de reclamar. Confesso que será muito difícil, pois o calor tá demais, já já vem o frio, esse governo é todo cagado. Mas esse é o tipo de coisa que eu não posso controlar, as reclamações são apenas lugar-comum e o Twitter serve pra que, né? Com quase todo o resto, dá pra canalizar as duas horas de blábláblá-ninguém-me-ama-ninguém-me-quer para o que realmente importa. 

Sempre vai acontecer algo no trabalho que me fará torcer o nariz e revirar os olhos; as coisas estarão sempre caras; os pratos sempre se acumularão na pia, as roupas sujas no cesto; as pessoas sempre serão exageradamente felizes nas redes sociais. E o que eu posso fazer com tudo isso? Respirar fundo e focar no que importa. Já tem vários dias que decidi não choramingar. Dei um tempo desse negócio de me achar uma pobre miserável. Parei de vasculhar o Instagram em busca de ansiedade, inveja e o eterno sentimento de que todo mundo tem a vida melhor que a minha. Fui lavar logo meus pratos e pronto.

É claro que ainda estou engatinhando. Como uma reclamona profissional, com doutorado em Havard e um Nobel na estante, é complicado virar do avesso do dia pra noite. Mas já me sinto orgulhosa por ter me reconhecido dessa maneira (primeiro passo para a rehab), não quero perder o tempo que eu não tenho procurando desculpas para justificar o vitimismo que só existe na minha cabeça. Tenho certeza de que aprender a ter mais consciência do meu papel nas situações e do que eu posso ou não fazer para encará-las será uma experiência libertadora.